Estudo da Universidade de São Paulo aponta para 450 espécies silvestres afetadas e prejuízo com esse tipo de colisão é de mais de R$ 55 milhões por ano A imagem de uma sucuri verde atropelada na MT-338, em Mato Grosso, circulou na internet no começo do ano, comoveu e chamou a atenção para a mortandade de animais nas estradas. As cenas chocaram pela mórbida plasticidade, uma vez que a sucuri prenhe trazia em seu ventre mais de cem filhotes já formados. Nenhum sobreviveu.
O número de animais silvestres mortos nas estradas não é preciso: varia de 2 milhões a 300 milhões por ano, a depender de qual organização faz a pesquisa. Mas Alex Bager, coordenador do Centro Brasileiro de Ecologia nas Estradas, entidade ligada à Universidade Federal de Lavras (MG), garante ter a resposta correta. “O número mais perto da realidade é 475 milhões [903 por minuto], pois nossa pesquisa contempla animais de todos os portes e espécies, de rãs e aves a capivaras e onças”, explica. A quantidade de animais mortos representa mais que o dobro de habitantes do país.
Fotos e vídeos de sucuri atropelada em rodovia do Mato Grosso circularam na internet; a fêmea carregava filhotes que não sobreviveram
Reprodução G1/Ederson Negri Antonioli – Arquivo pessoal
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Bager aponta outro fator para justificar seu cálculo: nem sempre os animais morrem na rodovia. “Muitos sofrem ferimentos e acabam morrendo na mata — e não são contabilizados”, diz ele. O que parece indiscutível é que a maioria das vítimas é saudável, como demonstrou estudo conduzido pelo Laboratório de Patologia Comparada de Animais Selvagens, da USP.
De 2021 a 2023, pesquisadores analisaram as carcaças de animais nas estradas que cortam a Mata Atlântica, o Pantanal e o Cerrado, e concluíram que nenhum deles apresentava problemas de saúde. A conclusão do estudo é que o trauma veicular retira das populações naturais a nata reprodutiva. São atropeladas no Brasil 450 espécies silvestres, algumas em vias de extinção.
O Instituto de Conservação de Animais Silvestres (Icas), sediado em Campo Grande (MS), entende que a mortalidade não é fatalidade. “É tragédia anunciada”, afirma o biólogo Arnaud Desbiez, fundador da entidade. “Sabemos que o maior fluxo de animais silvestres nas estradas ocorre em horários específicos, como no amanhecer e na boca da noite, geralmente em trechos já conhecidos.” Desbiez evita o termo “atropelamento”, prefere usar colisão. “É mais apropriado porque a maioria dos motoristas não atropela de propósito, já que muitos são vítimas do acidente. O custo de acidentes envolvendo animais ultrapassa os R$ 55 milhões por ano”.
Institutos de preservação incentivam governos a investirem na construção de passarelas para ajudar a reduzir os níveis de mortalidade de animais nas estradas
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A malha rodoviária brasileira tem cerca de 1,8 milhão de quilômetros e pelo menos duas rodovias são apontadas como fatais para os animais silvestres: a BR-471, entre Pelotas e Chuí (RS), e a BR-262, no trecho entre Três Lagoas e Corumbá (MS). Para tentar reduzir a mortandade, alguns governos são estimulados pelas entidades preservacionistas a construir passarelas ou passagens subterrâneas em pontos de maior fluxo de animais. A providência resolve em parte, uma vez que reduz o número de atropelamentos em 86% dos casos. Mas nem sempre funciona, de acordo com Alex Bager. “São iniciativas caras e, com o avanço da agricultura e áreas de pastagens, os animais são obrigados a mudar constantemente de rota, o que torna as passarelas obsoletas.”
O coordenador da universidade de Lavras acredita que a solução está na tecnologia: em 2023, com outros dois sócios, ele criou a EnvironBIT, startup que mapeou 400 mil quilômetros de estradas, apontou os trechos onde os animais silvestres são mais vulneráveis e desenvolveu um aplicativo, o U-Safe, nos moldes dos aplicativos de orientação de rota. No caso, o U-Safe alerta sobre a presença de animais na pista.
Placas de trânsito em rodovias alertam motoristas em trechos em que há risco de colisão com animais silvestres
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O dispositivo foi lançado em fevereiro, e já despertou o interesse de empresas de logística, de algumas entidades governamentais e, segundo Bager, de empresas automotivas baseadas na Europa.
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